UMA VEZ SALVO, SALVO PARA SEMPRE?

Por Silas Roberto Nogueira
(Material apresentado originalmente na 1° Igreja Batista em Suzano em Julho de 2009)

O debate sobre a possibilidade de o crente perder ou não a salvação é antigo e atingiu seu clímax no séc. XVII. Toda a polêmica está ligada ao nome de Jacob Van Harmazoon (1560-1609), mais conhecido (forma latinizada do seu nome) como Jacobus Arminius. Arminius foi um teólogo holandês que, embora educado no calvinismo sob Teodoro de Beza, se opôs à posição extremada do calvinismo dos seus dias, o supralapsarianismo. [[i]] No entanto, ele não se desfez da doutrina da segurança eterna dos santos na qual creu até o fim dos seus dias, a apostasia nesse ponto coube aos seus discípulos. [[ii]]


Após a morte de Arminius alguns dos seus discípulos sistematizaram o seu pensamento em alguns pontos básicos, entre os quais estava a possibilidade do crente perder a sua salvação, o “cair da graça”. Esse documento, conhecido como Articuli Arminiani sive Remonstrantia (1610), que se opunha ao sistema calvinista até então aceito pela igreja estatal, foi apresentado ao parlamento holandês como uma alternativa à teologia reformada. [[iii]] A disputa teológica (e política, visto que interesses políticos entraram na pauta) acirrou-se até que foi convocado um Sínodo na cidade de Dordrecht, de 13 de novembro de 1618 a 9 de maio de 1619, cuja função era examinar o cinco pontos do arminianismo à luz das Escrituras. Os arminianos ou “remonstrantes” se fizeram representar por 12 de seus líderes, o mais destacado Simon Episcopius (1583-1643), professor de teologia em Leyden, é a quem se atribui a sistematização do pensamento de Arminius. Outros teólogos vieram de outras partes da Europa, Grã-Bretanha, Palatinado, Helvetia, Genebra, Bremen, Bélgica, Zutânia, Austrália, Nova Zelândia, Frísia, Transilvânia, Groningen, Drentia, Gálica-Belga, Hesse, Suíça, Bradenburg, Utrecht e Balcanquali. Após 154 sessões o veredicto dos teólogos do Sínodo de Dort (como ficou conhecido) foi que o arminianismo era incompatível com o ensino da Bíblia, condenando-o e ratificando a fé reformada.


Mas o arminianismo não foi erradicado, antes se espalhou por todo mundo e é defendido por muitas denominações desde aqueles dias até hoje. A posição oficial do Metodismo, seguindo João Wesley (pai do metodismo) é a de que o crente pode perder a sua salvação. Em um dos seus sermões ele declara:


Se as Escrituras são verdadeiras, aqueles que são santos ou justos no julgamento do próprio Deus; os que possuem a fé que purifica o coração, que produz uma boa consciência; os que são ramos da videira verdadeira, de quem Cristo diz: “Eu sou a videira, vós as varas” ; os que de tal modo conhecem a Cristo que, através desse conhecimento, escaparam da poluição do mundo; os que vêem a luz da glória de Deus no rosto de Jesus Cristo e que são participantes do Espírito santo, do testemunho e dos frutos do Espírito; os que vivem pela fé no Filho de Deus; os que são santificados pelo sangue da aliança, podem, contudo, cair e perecer eternamente [iv]


Seguem a posição arminiana/wesleyana os pentecostais e neo-pentecostais. A posição da Igreja Católica Romana, exposta no Concílio de Trento é que deve ser considerado anátema aquele que diz que tem certeza da salvação [“Se alguém disser que o homem, uma vez justificado, não pode perder a graça...seja anátema” - Conc. de Trento, Sess.vi, Can. 23]. Os Batistas, de modo geral, sustentam que o crente não pode perder a sua salvação, assim também a maioria das igrejas reformadas.

2. DEFININDO A DOUTRINA
UMA DECLARAÇÃO NEGATIVA

O fato é que boa parte da polêmica quanto à doutrina da Perseverança dos Santos reside na má compreensão daquilo que se pretende dizer com ela. Berkhof, teólogo presbiteriano, está certo em dizer que a exposição da doutrina da perseverança dos santos deve ser feita com cuidado por causa dos mal entendidos que surgem da incompreensão do assunto. [[v]] Assim, antes de oferecer uma definição positiva do assunto, sinto-me compelido a fazê-lo de modo negativo, isto é, dizendo o que não é.


(a) Em primeiro lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não queremos dizer que uma pessoa regenerada é salva no fim, não importando o aconteça após a sua “regeneração”. Alguns têm dito que se você confessa Cristo como seu salvador, não importa a vida que viva ou as obras que realize ou deixa de realizar, será finalmente salvo. Esse é o erro em que caiu o teólogo batista R. T. Kendall em seu livro Once Saved, Always Saved (Uma vez Salvo, Salvo para Sempre) quando diz:

eu afirmo categoricamente que a pessoa que é salva, “que confessa que Jesus é Senhor e crê no seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos,” vai para o céu quando morrer, não importando que obras (ou falta de obras) possam acompanhar tal fé. Em outras palavras, não importa que pecado (ou ausência de obediência cristã) possa acompanhar tal fé. [[vi]]

Não poderia deixar de mencionar nessa mesma linha a teoria igualmente perigosa do “crente carnal” defendida por alguns estudiosos como Lewis S. Chafer e mais atualmente Zane C. Hodges [[vii]]. Os que defendem essa teoria descrevem o “crente carnal” como alguém que, embora regenerado, vive no pecado, como um irregenerado, mas que finalmente será salvo, embora suas obras sejam queimadas. O fato é que tanto Kendall quanto os defensores da teoria do “crente carnal” contrariam as Escrituras com tais declarações, deturpam a Doutrina da Perseverança dos Santos em todos os símbolos de fé que a expõem, seja a Confissão de Fé de Westminster e seus Catecismos ou nas Confissões de Fé Batistas de 1689, New Hampshire, a atual Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira e outras onde tal doutrina é afirmada e ainda colaboram para a má compreensão do ensino perfeitamente bíblico e a perpetuação do erro.


(b) Em segundo lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não queremos dizer com isso que a salvação é iniciada pela fé e preservada pela vontade humana ou pelas obras. Em outras palavras é o homem que se mantém a si mesmo salvo. Berkhof notou que poderiam chegar a essa conclusão os que seguissem a definição do teólogo batista A. H. Strong sobre a Perseverança dos Santos. [[viii]] De fato Strong define a Perseverança como “continuação voluntária da parte do cristão na fé e nas boas obras” e a considera “o lado humano ou aspecto do processo espiritual que, visto do lado divino, chamamos santificação. Não é mera conseqüência da conversão, mas envolve constante atividade da vontade humana a partir do momento da conversão até o fim da vida”. [[ix]] O equívoco aqui está em considerar a perseverança como uma realização apenas humana, circunscrita somente à sua vontade. Perseverança é obra de Deus, primariamente e do homem, secundariamente. O homem coopera com ela pela fé, mas não a produz por si só. Walter T. Conner (1877-1952), teólogo batista, declara a doutrina da Perseverança dos Santos significa que “a pessoa deve perseverar naquilo em que principiou, a saber: a fé. Não significa que outra coisa que não seja a fé seja necessária para a salvação, mas que a perseverança é uma qualidade da fé salvadora. A fé que não possui em si o caráter de persistência, não é fé salvadora”. [[x]]


(c) Em terceiro lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não queremos dizer que o crente jamais possa, momentaneamente, desviar-se dos caminhos do Senhor. É importante lembrar que “os crentes verdadeiros às vezes caem em tentações e cometem pecados graves, mas esses pecados não os separam de Cristo. O Espírito os erguerá, e os ajudará a continuar e perseverar em santidade” [[xi]]


(d) Em quarto lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não queremos dizer que todos os membros da igreja local têm sua salvação garantida. Reconhecemos que entre o trigo há joio e que não temos todos os elementos para uma distinção precisa e absoluta daqueles que conseguem dissimular sua verdadeira natureza até que o Senhor o manifeste arrancando-o do meio de nós.


(e) Em quinto lugar, quando afirmamos a Perseverança dos Santos não significa que os crentes são mantidos salvos contra a sua própria vontade. O homem não é salvo contra a sua vontade e não permanece salvo contra a sua vontade. Nas palavras de Conner “se a pessoa crê que a fé pode ser produzida pelo Espírito Santo no coração do homem, no início da vida cristã, sem interferir na liberdade do homem, então não há razão por que não deva crer que o mesmo Espírito conservará a fé viva sem violentar-lhe a liberdade. Se Deus pode operar a fé no pecador não regenerado, sem fazer violência à sua liberdade, por que não pode Deus conservar viva a fé no coração do regenerado, sem interferir em sua liberdade?” [[xii] ]


UMA DECLARAÇÃO POSITIVA
Bem, depois de dizer o que a Perseverança dos Santos não é, penso que chegou o momento de fazermos uma declaração positiva, isto é, o que ela é. Perseverança dos Santos é a doutrina que afirma que os que foram regenerados continuarão no caminho da salvação, de maneira que o que foi iniciado neles pelo poder de Deus tem pelo mesmo poder, prosseguimento e consecução, sendo plena e eficazmente realizado. Isso é expresso na antiga Confissão de Fé dos Batistas de 1689, nos seguintes termos:

Os que Deus aceitou no Amado, aqueles que foram chamados eficazmente e santificados por seu Espírito, e receberam a fé preciosa (que é dos seus eleitos), esses não podem decair totalmente nem definitivamente do estado de graça. Antes, hão de perseverar até o fim e ser eternamente salvos, tendo em vista que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis, e Ele continuamente gera e nutre neles a fé, o arrependimento, o amor, a alegria, a esperança e todas as graças que conduzem à imortalidade. Ainda que muitas tormentas e dilúvios se levantem e se dêem contra eles, jamais poderão desarraigá-los da pedra fundamental em que estão firmados, pela fé.

Na Confissão de Fé de New Hampshire (1833):
Cremos que são crentes legítimos aqueles que resistem até o fim; que seus perseverantes vínculos com Cristo é o grande marco que os distingui dos professos superficiais; que uma especial providência zela por seu bem-estar; e eles são guardados pelo poder de Deus através da fé para a salvação.

Na atual Declaração de Fé dos Batistas Brasileiros:
A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus. Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus. O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação

Há diversos grupos batistas no mundo, os mais representativos no Brasil (além dos da C. B. B.), mantém a doutrina da perseverança dos santos.

Continua...

[i] História da Teologia Cristã, Roger Olson, Vida, p. 465
[ii] A Soberania Banida, R. K. Mc Gregor Wright, pág. 30
[iii] História da Teologia Cristã, Roger Olson, pág. 482
[iv] Teologia Sistemática, Franklin Ferreira, pág. 891
[v] Teologia Sistemática, L. Berkhof, pág.
[vi] Citado por Paulo Anglada em Fides Reformata, Vol. III, 1998, pág. 3.
[vii] Algumas obras condenam esse ensino, entre elas Existe Mesmo o Crente Carnal, E. Reisinger, O Evangelho Segundo Jesus, John F. MacArthur, ambos da Ed. Fiel, e Cristo, o Senhor, Michael Horton, Cultura Cristã.
[viii] Teologia Sistemática, L. Berkhof, pág. 550
[ix] Teologia Sistemática, A. H. Strong, Vol. II, págs. 624,625
[x] O Evangelho da Redenção, W. T. Conner, pág. 206
[xi] Teologia Sistemática, F. Ferreira, pág. 885,886
[xii] O Evangelho da Redenção, pág. 206

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